Formamos uma rede de pesquisadores ativistas que juntamente com pixadores de todo o Brasil procura articular discussões e estratégias em relação aos diversos campos com os quais a pixação dialoga: sociologia, educação, antropologia, geografia humana, arte, direito, criminologia, comunicação, jornalismo, etc.

A pixação, embora criminalizada, pode ser hoje considerada genuína expressão da cultura popular brasileira. A ortografia com “x” é aqui utilizada para destacar a propriedade dessa expressão cultural, que existe há mais de três décadas nas metrópoles brasileiras. No caso do reconhecimento institucional, a expressão ganhou um ponto como cultura popular no edital de Intercâmbio do Ministério da Cultura, pois representa a identidade da metrópole como cultura imaterial nos conceitos aplicados pelo regimento do IPHAN.

 A discussão sobre a pixação no âmbito das ciências sociais tem tido espaço garantido nos maiores encontros científicos do país. O exemplo disso é a presença de trabalhos na 28ª Reunião Brasileira de Antropologia, XII Congresso Luso Afro Brasileiro e a mesa redonda no 39º Encontro Anual da  Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais , os dois últimos sob a coordenação da professora Glória Diógenes da Universidade Federal do Ceará. Portanto, relevantes pesquisas científicas vem demostrando as várias dimensões da pixação como um potente fenômeno de nossa cultura contemporânea. Ainda no campo da antropologia, Alexandre Barbosa (USP) demostra que a pixação forma importantes redes de sociabilidade entre jovens das periferias da grande São Paulo, o que também foi relatado por Roselene (Roca) Alencar (UFBA) em Salvador. Deborah Pennachin (UFMG) aponta para a pixação com o símbolo da metrópole paulistana e Gustavo Lassala (Mackenzie SP) assinala à unicidade da pixação como expressão gráfica urbana. No Rio de Janeiro, Gustavo Coelho (UERJ) discute a pixação como letramento popular que recobre com camadas de autoria jovem uma cidade a priori interditada. No campo da sociologia da arte, Sérgio Franco (USP) tem demostrado que não há nada mais conceitual que a pixação. Já o processo de criminalização da pixação, vem sendo criticamente analisado por Paula Larruscahim em sua pesquisa financiada pela União Europeia, junto às Universidades de Kent (Inglaterra) e Utrecht (Holanda). Quanto às políticas de regulamentação repressiva do espaço público em relação à pixação na grande São Paulo, estas vêm sendo denunciadas por Paul Schweizer (Universidade de Frankfurt, Alemanha).

Cabe destacar também os trabalhos da Frente Cultura de Rua vinculada ao Programa Cidade e Alteridade da Faculdade de Direito (UFMG), que vem tendo importante papel no campo jurídico, garantindo a defesa de uma série de pixadores indiciados em duras operações policias em Belo Horizonte, como a recentemente intitulada Argos Panoptes(1).

Para além do universo acadêmico, a pixação vem sendo reconhecida em diversos campos como por exemplo o da arte, cinema e educação. Tal importância pode ser identificada na sua participação em notáveis exposições, inclusive internacionais, bem como havendo sido tema de obras cinematográficas premiadas, livros, palestras e conferências, apenas para exemplificar algumas:

  • Documentário “Pixo” (Roberto T. Oliveira e João Wainer, 2009), com importantes exibições, como por exemplo, na Fundação Cartier (Paris 2009) e na sessão de filmes etnográficos do Programa de Pós Graduação em Antropologia da UFBA e debate com a participação do Djan Ivson (Salvador, 2011)

  • Filme etnográfico “Luz, Câmera, Pichação” (Gustavo Coelho, 2011), que em 2011 na Mostra Internacional de Filme Etnográfico ganhou o Prêmio Manuel Diegues Jr. do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP) e do Iphan, assim como no mesmo ano esteve na Première Brasil do Festival do Rio.

  • Filme “Pixadores” (Amir Escandari, 2014), projeção nos festivais de cinema, que abrangeu entre 2014 e 2015, onze países: Festival Internacional de Cine de Panamá (Panamá), Bertha Doc House (Londres, Reino Unido), One World Romania (Bucareste, Romênia), Copenhagen Architecture Festival (Copenhagen, Dinamarca), Tempo Documentary Festival (Estocolmo, Suécia), Film Festival One World (Praga, República Tcheca),   Luxembourg City Film Festival (Luxemburgo), Cleveland International Film Festival (Cleveland, EUA),   Festival International du Film d'Aubagne (Aubagne, França),  Göteborg Film Festival (Gotemburgo, Suécia), International Documentary Festival Amsterdam (Amsterdam, Holanda), e (Helsinki, Finlândia)

  • Publicação do livro “Pixação: São Paulo Signature” pelo arquiteto e designer gráfico francês François Chastanet (2007)

  • Publicação do livro “Pichação não é pixação” pelo designer e professor universitário Gustavo Lassala (2010)

  • Exposição “Né Dans La Rue: Graffitti”, Fundação Cartier. (Paris 2009)

  • Exposição “São Paulo Mon Amour” (Paris 2009, São Paulo 2012)

  • 29a Bienal de São Paulo (São Paulo 2010)

  • Participação da Pixação na 7ª Berlin Biennale de Arte Contemporânea (Berlin 2012), com contemplação do edital de Intercâmbio do Ministério da Cultura para a compra das passagens aéreas para a Alemanha (2)

  • Exposição “Um Risco” do artista e pixador CALIGRAPIXO na Galeria Luis Maluf (São Paulo 2015)

  • “A pixação como Deriva contemporânea” – aula ministrada por Sérgio Franco no curso “Arte e Transgressão – do Modernismo à Arte Contemporânea” no Museu Brasileiro de Escultura - MUBE (São Paulo 2013)

  • Seminário “Derivas e Memórias Contemporâneas na Pixação” (UFBA), patrocinado pelo Ministério da Cultura, Petrobras e Funarte (Salvador 2013)

  • Palestra “Na São Paulo da pixação quem não é visto não é lembrado”, ministrada por Djan Ivson e Alexandre Barbosa no Programa SESC-SP “Ações para a Cidadania” (São Paulo 2015)
  • Palestra “Em nome do pixo”, ministrada por Gustavo Lassala no 25º Encontro Nacional de Estudantes de Design (São Paulo 2015)

Procuramos através desse breve documento expor alguns dos tantos aspectos relevantes para a análise da pixação para além das simplistas reduções legais como é comumente  abordada.

Dessa forma, colocamos à disposição o nosso conhecimento científico e prático acumulado durante os anos de trabalho sobre a pixação e com os pixadores, bem como oferecemos nosso apoio na discussão da temática.

 

1 - Figura mitológica grega que “tudo vê”. Possuia 100 olhos e quando dormia, mantinha 50 deles sempre abertos.

2 - Item 6.6 do Edital de Intercâmbio nº 01/2012, da Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura, publicado na Seção 3 do Diário Oficial da União de 27 de janeiro de 2012